“Pelos meus olhos me fascino/ por minhas mãos me desenho”

“Lírio” (2024), pastel óleo e acrílico sobre papel (80x100cm) de Mariana Camposinhos

Os versos, em epígrafe, de minha autoria, em muito se cruzam com os textos pictóricos de Mariana Camposinhos. De facto, neles explode um raro encantamento expresso em ritmos de cores vivas lançados por suas mãos em traços que peregrinam libertos e fugazes, sobre a tela, alheios aos cânones clássicos não os ignorando, contudo.

Na sua obra, já plural e marcante para a sua idade, a presença do Sonho é aludida, através de ícones recolhidos, de um modo inconsciente, das culturas ancestrais hispânico ibéricas eivadas de um paganismo autêntico com o qual espiritualmente a artista se identifica. Uma linha de fogo é reacendida pela artista, num presente de vanguarda, no qual sente a vontade do regresso ao útero da Madre Natura, onde a vida animal se transcende, a par e passo, com o ritmo expansivo dos sonhos humanos. É pela linha da intuição que a autora capta esta realidade na dança das forças inconscientes, vertendo-as, pelo domínio ágil do traço, na brancura da tela, que é porta aberta, para uma transferência operativa da transmutação dos símbolos e dos  mitos que são o laboratório de um milagre resultante da harmonia nupcial entre a luz e a cor.

Inspirada na obra ambivalente de Patty Smith, escritora e pintora, Mariana Camposinhos apaixona-se pelas linhas fecundas do sagrado feminino e pela influência orgânica dos seus ciclos lunares, num raro repertório pictórico no qual se projetam, ainda, o impressionismo provocatório dos ritmos da obra de Egon Schiele. Eis por que a obra da jovem artista é já mais que um sinal de modernidade. É uma promessa.

Maria Adelina M. Vieira
Braga, 24 de novembro de 2025

A exposição “Mundo Sonhado”, patente na Casa do Professor, em Braga, reúne dez obras independentes, cada uma exploratória de um fragmento distinto do imaginário noturno da artista. Juntas, formam um percurso visual dos territórios íntimos e incompreensíveis do sonho.

A exposição estará patente na Casa do Professor de 29 de novembro de 2025 a 31 de janeiro de 2026. A entrada é livre.

Contacto: claraboia@casadoprofessor.pt
Morada: Avenida Central, 106-110 Braga
Horário: 2.ª a sábado das 10h00 às 18h00